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Blog do Luba

DIA DAS MÃES: MULHERES QUE TIVERAM SEUS FILHOS DEPOIS DOS 35 ANOS

Aos 35 anos, Karina Bacchi congelou seus óvulos. Na época, 2011, a prática dava seus primeiros passos (ainda levou um ano até a Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva considerá-la recomendável e segura), mas a atriz preferiu se garantir. Casada com um publicitário que não queria mais filhos (15 anos mais velho, ele é pai de dois, de outro relacionamento), ela decidiu abafar o desejo de ser mãe, mas sentia que a idade lhe dava cada vez mais certeza da maternidade. “Em todas as minhas fotos de criança estou com uma boneca no colo, sempre fui muito maternal. Mas ainda precisava de tempo para decidir.”

Cinco anos depois, um susto acelerou a escolha. Resultado de uma hidrossalpinge (acúmulo de líquido entre os ovários e o útero), Karina teve de passar por uma cirurgia para retirar as trompas – o que determinou: a partir dali, seria impossível ter filhos por vias naturais. Restava, no entanto, a esperança de gestá-los. “Por sorte, não foi o útero que perdi. O que aconteceu foi um alerta de que o tempo estava passando, e eu não tinha controle sobre nada além da minha própria decisão.” Diante do risco, deu o ultimato ao marido. E, como ele se manteve irredutível, Karina tomou fôlego para embarcar naquilo sozinha.

Separou-se e, recém-solteira, decidiu partir para uma fertilização in vitro. A ideia era recorrer a um doador de sêmen anônimo que expusesse alguns dados pessoais. “Queria me reconhecer no meu filho, por isso tinha de ser alguém parecido comigo. Pesquisei por meses em bancos brasileiros e internacionais, até que escolhi um estrangeiro de cabelos e olhos claros, esportista, despojado. Vi as fotos de infância, ouvi a voz dele, sei do histórico familiar. Parece que foi uma criança feliz e com muito contato com a natureza, assim como eu.”

Aos 9 meses, Enrico se parece com a mãe, tem os olhos azul piscina e o jeito sereno – mesmo com os primeiros dentinhos despontando na boca. Karina, 41, se emociona só de olhá-lo. “Não me senti fragilizada por ter escolhido ser mãe sozinha. Se me preocupava com algo, ligava para minhas médicas. Claro que ainda é desafiador, já tive de usar o banheiro com ele no colo, porque não tinha com quem deixá-lo. Mas um homem não fez falta para completar minha maternidade”, diz. “Foi tudo na hora certa. Hoje tenho estrutura suficiente para que ele seja a prioridade da minha rotina”, afirma ela, que, em agosto, entra no ar como apresentadora da Record News e, na tarde desta entrevista, às 14h de uma terça-feira, se arrumava para acompanhar o pequeno na aula de natação.

Como nunca antes, a convicção de Karina reflete a realidade: a maternidade depois dos 35 anos é a que mais se adapta aos desejos e às escolhas da mulher moderna. Nos Estados Unidos, desde os anos 80, a taxa de natalidade entre mães acima dos 35 cresceu cerca de 60%, apesar de a idade ser considerada avançada para a medicina. No Brasil, segundo o IBGE, o percentual de mulheres que têm filhos entre 35 e 39 anos quase dobrou na última década, sobretudo nas regiões Sul e Sudeste. “É uma realidade preocupante, mas que também tem seu lado positivo”, afirma o médico Aléssio Calil, membro da Sociedade de Ginecologia e Obstetrícia de São Paulo. “Nessa faixa etária, os óvulos começam a envelhecer e há mais riscos de síndromes e má-formações do feto, o que eleva também os índices de aborto. Por outro lado, nesse período as famílias estão mais bem constituídas, e as mulheres, mais certas de suas escolhas, além de consolidadas do ponto de vista profissional”, completa.

Essa solidez foi o impulso que faltava à arquiteta Karina Fernandez, 41, para pôr em prática os planos de ser mãe, quando completou 36 anos. Portadora de uma doença congênita, deu adeus ao sonho de engravidar aos 14, quando recebeu o laudo de útero infantil. Passou a adolescência digerindo a questão, sem dividir com os amigos. E logo começou a vislumbrar a possibilidade de ser mãe por outros meios, como adoção ou barriga de aluguel, sempre silenciosamente. “Sou uma pessoa prática, racional. Guardo para mim. Sempre gostei de criança, mas, antes, queria me estabilizar, casar.”

Dito e feito. Há cinco anos, quando completou 12 de relacionamento e, cansada de trabalhar numa construtora, já acumulava experiência e autoconfiança suficientes para se tornar autônoma, sentiu que era a hora. Numa clínica de reprodução assistida de São Paulo, ela e o marido passaram pelo procedimento de fertilização e congelaram nove embriões, todos saudáveis. Karina, então, fez contato com uma organização de barrigas de aluguel na Índia, disposta a cruzar o globo atrás de alguém para gestar seu bebê. (No Brasil, a barriga de aluguel, envolvendo comercialização, é proibida, mas o Conselho Federal de Medicina (CFM) autoriza a doação temporária do útero em uniões homoafetivas ou em caso de problema médico que impeça a gestação.)

Animada com os resultados, pela primeira vez Karina reuniu as amigas para comemorar. E foi aí que uma delas, das mais próximas desde os tempos da faculdade, resolveu se envolver. “Ouvi a história e, quando vi, já tinha me oferecido para gestar o embrião. Foi de coração, só pensava em ajudá-la”, conta Renata de Oliveira, 41. Mãe de Laís, então com 5 anos, acompanhou a amiga em quase dois anos de preparação, entre conseguir a autorização do CFM e providenciar acompanhamento psicológico e também consultas médicas para atestar sua saúde. Como é praxe, recebeu no útero mais de um embrião de Karina. E comemorou com a amiga o anúncio de que tinha sido bem-sucedida, logo na primeira tentativa, a resposta de ambos os fetos. “Tinha 32 anos na minha primeira gravidez, e a Laís nasceu prematura. Já com os gêmeos, fui até a reta final. A maturidade ajudou”, diz Renata. Aos 38 anos, Karina tornou-se mãe de Gustavo e Gabriel, 3, graças à ajuda da amiga.

Mesmo os mais próximos ainda questionam Renata se ela não ficava insegura ao pensar no que acabaria acontecendo: deixar a maternidade do hospital de mãos abanando. Mas ela insiste que não teve medo. “Eram os filhos da minha amiga, estava claro para mim. Conversávamos muito, e Karina me deu todo o apoio e tranquilidade. Passei a reta final da gravidez na casa dela, foi um período muito gostoso. No momento em que vi os gêmeos saindo da minha barriga, a emoção foi grande, mas completamente diferente do que senti no caso da minha filha”, conta Renata, que é madrinha de Gustavo e Gabriel. Já Karina teve sintomas parecidos com os de depressão pós-parto, apesar de não ter parido. “Foram muitas crises de enxaqueca. Faço tratamento até hoje por causa de privação de sono. Acho que é um aspecto que pesa em ser mãe mais velha. Sua energia não é mais a mesma. E cuidar de dois bebês não é fácil – imagine gestá-los. Hoje, tenho certeza de que, se eu tivesse gestado meus filhos, eles não teriam sido tão bem cuidados como foram na barriga dela”, diz.

Área de risco

Segundo a literatura médica, casos como os de Karina Bacchi e de Karina Fernandez só foram tão exitosos por contarem com a ajuda da ciência – a fertilização in vitro. Os especialistas afirmam que, a partir dos 36 anos, 40% das mulheres têm dificuldade para engravidar naturalmente. Em muitos casos, diferentemente do que aconteceu com as Karinas, nem sequer há doença. A verdade mais simples é também inevitável: nossos óvulos envelhecem. Você pode passar a vida cuidando minuciosamente da saúde, virar vegana, largar o glúten, não fumar, beber nem usar drogas, dedicar-se a exercícios vigorosos. Não tem jeito: mais cedo ou mais tarde, as dificuldades biológicas vão soar o gongo. “Essa crença de que a medicina é capaz de garantir tudo é uma fantasia de perenidade”, afirma a psicanalista Vera Iaconelli. “Adiar a gravidez pode vir acompanhado da dificuldade de engravidar. As mulheres têm de saber o que está em jogo quando escolhem a maternidade tardia. Muitas não têm nem certeza de que querem ser mães, mas, quando a idade aperta, se jogam sem ponderar. É preciso pesar os ônus com cautela. A equação da maternidade ainda é muito injusta.”

Conforme a idade aumenta, crescem os riscos de doenças na gravidez e de anomalias cromossômicas no feto. O risco de óvulos envelhecidos gerarem bebês doentes é grande. “Quando a mulher tem mais de 35 anos, há aproximadamente uma chance em 400 para o bebê nascer com Down, a síndrome mais comum nesses casos. Abaixo disso, a ordem é de 1 para 1.000”, explica o ginecologista Ricardo Luba, membro da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana. Nessa seara, o prazo de validade da fertilidade masculina também é posto em xeque. Há estudos que sugerem que, em casos de pai e mãe com mais de 35 anos, a idade paterna pode ser determinante por até metade dos casos de síndrome de Down. E que, com o envelhecer dos espermatozoides, os homens também sentem as badaladas do relógio biológico.

Apesar de a medicina fetal nunca ter sido tão avançada, ainda não há panaceia. “É preciso investir num bom estado pré-concepcional: alimentação saudável e balanceada, prática de exercícios físicos e check-up em dia”, explica o obstetra Eduardo Zlotnik, vice-presidente do Hospital Israelita Albert Einstein. “Fora isso, o que se sabe é dos benefícios do ácido fólico a partir de três meses antes da gravidez – ele diminui muito o risco de problemas de formação neurológica. E da facilidade dos exames pré-natais: atualmente, detectam-se graves complicações com simples coletas de sangue.”

“Hoje, as mulheres que têm filhos mais tarde têm mais sorte do que tive. Na minha época, os exames eram invasivos, arriscados para a gestação. Por isso não fiz. Mas estava apavorada”, conta a geneticista Lygia da Veiga Pereira, 51. Aos 36, quando engravidou de sua primeira filha, Gabriela, 15, sabia bem os riscos que corria. “Dava aulas sobre alterações cromossômicas na universidade. Essas possibilidades me assombraram no início da gravidez. Só fui tirar a prova depois de dois meses, com o ultrassom morfológico.” Assim como na primeira gestação, na segunda, de Maria, 13, Lygia abdicou do exame de amniocentese (a arriscada retirada de líquido amniótico do abdome materno para análise).

Isso porque, antes de completar 35 anos, a cientista nem pensava na possibilidade de engravidar. Nos anos 90, enquanto suas amigas subiam ao altar, ela focava em seu doutorado nos Estados Unidos. Quase dez anos depois, ainda solteira e de volta ao Brasil, começou a dar aulas na USP, e as amigas já embarcavam na segunda gravidez. “Minha profissão era meu filho único”, diz. Tanto que nem ligou quando o então namorado Fabio (hoje seu marido) lhe contou, cheio de dedos, que era vasectomizado.

A vontade de ser mãe só veio depois de um ano casada, quando ele reverteu a cirurgia. Hoje, a ph.D. respeitada mundo afora diz que Gabi e Maria foram essenciais para entender que havia mais vida além da ciência – e descobrir novos jeitos de ser feliz. “Os problemas da universidade passaram a não me chatear tanto, parei de levar trabalho pra casa. E rejuvenesci: não me sinto mais velha que as mães das amigas delas, apesar de ser.”

Trabalho não é tudo

Para a pediatra Denise Lellis, da Sociedade Brasileira de Pediatria, os questionamentos acerca da maternidade acima dos 35 miram demais na área biológica e pouco na comportamental. “No meu consultório, a grande pergunta que ouço não tem a ver com cólica neonatal ou gripe. É: ‘O que eu faço com esta criança pra poder voltar a trabalhar?’”, diz. “A gente equilibra mais pratos a partir dos 35 que aos 20 e poucos, seja no trabalho, seja em casa. Quando nasce uma criança, dizem que nasce uma mãe, mas a verdade é que morre uma mulher sem filhos. E ela vive esse luto.”

Vivemos a primeira geração de mães que se relaciona com esse acúmulo de funções. No livro Mulheres Visíveis, Mães Invisíveis (2013), a psicopedagoga e best-seller argentina Laura Gutman explica a necessidade de as mulheres “reformularem suas identidades” antes de decidirem ser mães: “O mal-entendido compartilhado por nós, mulheres modernas, é acreditar que nosso ‘eu’ está só no trabalho. O trabalho nos salva. Devolve-nos a identidade perdida. No entanto, a outra parte está escondida e nós mesmas não conseguimos reconhecê-la”.

Para a executiva Rachel Maia, 47, a maternidade descortinou essa nova perspectiva. Quem convivia com ela, anos atrás, comenta a diferença em seu temperamento. E ela admite: “A Sarah Maria [que faz 7 anos em setembro] me ajudou a suavizar. Eu era uma pessoa estressada. Com ela, mudei a chave”.

Anos antes, Rachel já havia se conformado com a incapacidade de gestar um filho. Diagnosticada com útero policístico, passou por quatro cirurgias, que lhe renderam um útero todo suturado, com mais de 50 pontos. Aos 30, priorizou a carreira, mergulhou nos estudos. Por sete anos, dedicou-se à diretoria financeira da Tiffany & Co. Até que chegou ao topo da joalheria dinamarquesa Pandora. E, com oito meses de empresa, aos 40 anos, contrariando todas as expectativas do ginecologista que há mais de 20 cuida dela, ficou grávida. “Meu médico ficou em choque. E eu também. Sempre quis ser mãe, mas não daquela maneira, sem planos nem casamento.”

Tudo aconteceu pouco antes do Ano-novo. Um amigo a convidou para ver as luzes de Natal da Avenida Paulista antes que fossem desmontadas. Vinho vai, vinho vem, terminaram a noite juntos. E só em meados de fevereiro ela se deu conta: “Fiz cinco testes de gravidez, no banheiro do trabalho. Todos deram positivo. Contei para meu chefe no mesmo dia em que ele me promoveu a CEO”. A filha foi um impulso maior para cumprir um cargo tão solitário, uma válvula de motivação. “Com Sarah Maria aprendi que menos é mais. Inclusive em relação à maternidade, puro exercício de amor e responsabilidade. Não ter com quem compartilhar esse compromisso faz reavaliar o que é ser mãe. E o que aprendi com a minha foi enfiar as dificuldades dentro do bolso, não se lamuriar das mazelas da vida. Fora que não tenho como sentir falta do que nunca tive, é o que me difere de mães separadas. Sarah foi um presente.”

Demitida no início do ano, depois de sete anos na Pandora, Rachel desabafa que talvez não tivesse a mesma estabilidade e tranquilidade de viver este período sabático sem a filha. “Me ajuda a enxergar propósito”, diz. No mês passado, teve um pedido de adoção aprovado pela Justiça. Quer adotar um menino. “Tecnicamente estou grávida [risos]. Nunca me senti tão pronta para ser mãe.”

Maternidade, ainda que tardia

A tomada do espaço laboral pelas mulheres é conquista e efeito das gerações que lutaram pela igualdade do voto e pela liberdade do desejo. Mas a expectativa social se inverteu. Hoje, a mulher que não tem uma carreira pode ser silenciosamente empurrada no imaginário, próprio ou alheio, para a perigosa área dos maus lençóis. No sufrágio político, a equidade é uma dimensão fundamental dos direitos, e é aí que se alicerça a justiça entre os gêneros. Contudo, a liberdade do desejo se mostrou mais refratária, porque não depende só da transformação do espaço público ou de contratos.

O caso mais paradigmático é a maternidade. Mesmo que a lei proteja a recém-mãe, ainda que menos que em outros países, e mesmo que os cônjuges tenham se tornado mais colaborativos, o tempo dedicado às tratativas pré-natais, às contingências e aos rearranjos familiares trazidos pela chegada de uma criança pode deixar a mulher em desleal desvantagem na arena de batalha em que se transformou a vida no trabalho. Ninguém deveria ter de optar pelo que deve colocar em primeiro lugar, filho ou carreira. Isso cria uma espécie de dilema eterno que pode levar mulheres à demissão da maternidade.

A liberdade de ser mãe acompanha uma inadmissível coerção biológica. Por mais que o período para tomar a decisão seja elástico, o processo decisional é cruel. Não decidir já é em si uma decisão. E a maternidade se marca pelo adiamento. Aceitar uma promoção difícil ou assumir o cargo que exige viagens constantes tornam-se glórias vividas com gotas de suor frio.

Quero crer que o enfrentamento disso remete a uma coletivização do desejo, mais do que a uma (bem-vinda) regulação dos limites jurídicos ou biológicos. Escuto cada vez mais que a decisão da maternidade é tomada em meio à solidão. Uma aposta de grandes riscos frente à precariedade e efemeridade dos vínculos amorosos. Os antigos laços de criação compartilhados por avós e tios não resultaram ainda em uma nova maneira coletiva de criar filhos. Muito se fala em experiências educacionais bem-sucedidas na Itália ou na Finlândia, mas pouco se acentua que nesses lugares as crianças são sentidas como uma responsabilidade comum. Aliás, o sentimento de que filhos são uma espécie de posse ou propriedade particular, em que os outros não devem se intrometer, é um dos sintomas nacionais mais visíveis do narcisismo à brasileira.

Jacques Lacan falava do tempo lógico, que até hoje marca a duração variável das sessões de psicanálise lacaniana, como um entendimento de que a decisão que leva à liberdade passa pelo outro, sem deixar de ser, ao mesmo tempo, individual. Penso que é assim que cada mulher deve encontrar seu próprio tempo para a maternidade.

Acesse o link do Portal da Revista Marie Claire: https://revistamarieclaire.globo.com/Noticias/noticia/2018/05/dia-das-maes-mulheres-que-tiveram-seus-filhos-depois-dos-35-anos.html

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